Casal_na_ cama

I

E eu dançava pelas nuvens, sentindo a espessa camada de ar acariciar minha face como uma das sedas mais puras. Flutuei por entre as mais belas paisagens sentindo o cheiro de árvores vivas e virgens, ouvindo o canto de pássaros inominados das mais vivas cores. Minh’alma dava voltas e bailava com seres feitos de ar, que sorriam para mim. Todas as partículas do meu corpo se arrepiavam e vibravam em puro prazer. E aquele seria o meu paraíso se não durasse poucos minutos, seria o meu lugar divino, a presença magnânima de Deus, se aquela sensação não passasse. Mas passou, (…) e seu corpo se afastou do meu respeitando os instintos de repulsa que seguem a sensação do gozo. Você virou para o lado, e pensei que veria mais uma daquelas clássicas cenas de um homem fumando depois de transar. Tão patético! E extremamente prejudicial. Sentou-se na cama e me olhou de um jeito tão especial que por uma fração de segundo quis saber seu nome. – Nos veremos de novo? – seus olhos brilhavam, os meus também. Aquela era a parte do Estranho Conhecido que eu mais temia. A troca de olhares acompanhada pelo pedido de mais, e a carência exigindo mais proximidade. – Creio que não. Não sou do tipo que se apega. – Mas… Levantei-me, puxando os lençóis da cama do motel barato que ele me levara. Ele ficou alarmado e veio em minha direção. – Não, espera… Desculpe, se você não quer nada além de hoje, tudo bem. Temos mais três horas para aproveitar. – Fique com elas, você já estragou o encanto mesmo. Eu estou indo. Peguei meu vestido no chão e o vesti rapidamente. Puxei a pequena bolsa e simplesmente sai do quarto. Deixei lá o Estranho Conhecido que se tornara um mero estranho que eu conhecera numa dessas noites. Por mais dois segundos em que eu caía novamente nas graças da frustração eu desejei ter visto a cena do homem pelado fumando na beira da cama, ou ao meu lado ainda debaixo dos lençóis, deixando meu cabelo fedendo aquela fumaça infeliz.