{"id":166,"date":"2014-04-06T19:41:43","date_gmt":"2014-04-06T19:41:43","guid":{"rendered":"http:\/\/oespelhonegro.wordpress.com\/?p=166"},"modified":"2014-04-06T19:41:43","modified_gmt":"2014-04-06T19:41:43","slug":"outra-vida-luan-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=166","title":{"rendered":"Outra Vida &#8211; Luan Silva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><a href=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/cabelo_tingido.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-167\" src=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/cabelo_tingido.jpg\" alt=\"cabelo_tingido\" width=\"267\" height=\"258\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Postado no RLS em 20\/02\/2011<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align:center;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\u201cAs madeixas louras da m\u00e3e se contorciam no frenesi da dor e do espanto. Como se toda a desgra\u00e7a que j\u00e1 se abateu no mundo houvesse se transformado num dem\u00f4nio e estivesse espancando cada mil\u00edmetro do seu corpo e torturando sua alma com l\u00e2minas finas e mortais. \u2013 Albert! Albert! \u2013 A m\u00e3o de um deus cruel, terr\u00edvel e vingativo havia despeda\u00e7ado uma parte do carro, quanto \u00e0 outra, estava toda amassada esmagando o corpo inerte e repartido de Albert, o pai.<br \/>\nUma, duas e mais tr\u00eas capotadas geradas pela gravidade despeda\u00e7aram pouco a pouco sem que tivesse necessidade de lam\u00farias, l\u00e1grimas ou ainda mais gritos o corpo do filho mais velho que foi ficando no caminho do penhasco junto com as pe\u00e7as do carro. Ela gritava, orava por um Deus que ela nem mais acreditava \u00e0quele instante e segurava o beb\u00ea que se matinha em sil\u00eancio em seus bra\u00e7os.<br \/>\nQuando o carro chocou-se com um ch\u00e3o plano e ricocheteou seu corpo inerte ela percebeu que o beb\u00ea tinha uma ferragem que atravessava seu peito e varava o dela. Quis gritar, mas j\u00e1 estava morta, junto com a fam\u00edlia que t\u00e3o feliz voltava pra casa&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">De supet\u00e3o ela acordou, estava encharcada de suor, \u00e2nsia de v\u00f4mito e com um frio sem sentido. Olhou ao seu redor e estava numa cama de um hospital, havia tubos e fios controlando sua vida e um homem sentado na cadeira ao seu lado, entre um jarro com flores vivas e um criado mudo com um controle em cima dele.<br \/>\nAs fei\u00e7\u00f5es do homem eram estranhas pra ela. Ele dormia, seus cabelos cacheados, ruivos como uma cereja e sua pele pigmentada cheia de sardas lhe eram t\u00e3o distantes que ela queria distancia dele.<br \/>\nE onde estavam seus filhos? Seu marido? N\u00e3o queria acreditar naquele sonho terr\u00edvel. N\u00e3o podiam ter morrido daquela forma, principalmente o beb\u00ea. Tentou se mover, mas seu corpo resistiu, pesando toneladas. Moveu o pesco\u00e7o e s\u00f3 o pesco\u00e7o, tentou mover os dedos, mas nem eles se moviam. Estava parapl\u00e9gica, o m\u00ednimo que poderia acontecer depois do acidente. Chorou silenciosa, n\u00e3o por seus movimentos, mas pela fam\u00edlia, aquela era a evidencia final de que ela fora amaldi\u00e7oada e castigada.<br \/>\nTentou achar um motivo para que os c\u00e9us quisessem tirar dela a vida dos filhos que ela passara tanto tempo gerando, e o marido que amava tanto. Talvez a recente trai\u00e7\u00e3o que cometera, mas Gomes, o amigo de trabalho do marido, era t\u00e3o sexy e t\u00e3o persuasivo que foi quase imposs\u00edvel n\u00e3o ceder a tenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTalvez a fraqueza que ela sentia ao cuidar dos filhos e para fugir daquela realidade em que um queria lhe enlouquecer com as travessuras e outro com o choro alto, ela se escondia no arm\u00e1rio e ficava l\u00e1 por uns cinco minutos. At\u00e9 o mais velho parar de quebrar tudo e ir socorrer o irm\u00e3ozinho que se engasgava com as pr\u00f3prias l\u00e1grimas.<br \/>\nEla n\u00e3o era uma pecadora, n\u00e3o tinha muitos erros. Era um tanto mesquinha, gostava de falar mais dos outros, mas entre as suas vizinhas, se n\u00e3o fizesse isso seria humilhada a cada dia por suas l\u00ednguas venenosas.<br \/>\nEnt\u00e3o porque Deus lhe castigara? S\u00f3 por uma trai\u00e7\u00e3o, ou porque era uma m\u00e1 m\u00e3e? Havia gente que matava, que fazia atrocidades e continuavam a fazer mal. E ela perdera tudo! TUDO. Sentiu o mesmo remorso que esmagava sua f\u00e9 como&#8230; \u2013 Lembrou da ultima vis\u00e3o do marido \u2013 Sentia \u00f3dio de Deus e realmente queria saber quem era o homem que dormia no seu quarto.<br \/>\n&#8211; Helena? Voc\u00ea acordou? \u2013 a voz dele era meio rouca e serena, assim como seus olhos azuis oceano.<br \/>\n&#8211; Sim, mas n\u00e3o sinto meu corpo.<br \/>\n&#8211; Foi por conta do acidente, mas os m\u00e9dicos disseram que \u00e9 tempor\u00e1rio, sua coluna est\u00e1 ainda perfeita, s\u00f3 que por enquanto lesionada.<br \/>\n&#8211; E s\u00f3 eu sobrevivi?<br \/>\n&#8211; Gra\u00e7as a Deus voc\u00ea sobreviveu, meu bem. Logo, logo nos casaremos e seremos felizes para todo o sempre.<br \/>\n&#8211; Me desculpa \u2013 ela hesitou, tentando vasculhar suas lembran\u00e7as em busca dele. Ser\u00e1 que ele era outro amante dela e fora apagado de sua mente por alguma les\u00e3o cerebral?<br \/>\n&#8211; O que houve, meu amor?<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o&#8230; Eu n\u00e3o consigo lembrar de voc\u00ea.<br \/>\nOs olhos dele, que sorriam para ela junto com suas fei\u00e7\u00f5es ficaram em d\u00favida.<br \/>\n&#8211; Do que voc\u00ea se lembra?<br \/>\n&#8211; Lembro que era casada, tinha dois filhos, e que cai de um penhasco com eles. Um dos meus filhos se chamava Peter, o outro era Paul&#8230;<br \/>\n&#8211; Helena, minha querida&#8230; Acho que voc\u00ea est\u00e1 um pouco confusa.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Sinto, mas acho que \u00e9 voc\u00ea quem est\u00e1 me confundido com a sua Helena. Eu sou eu, lembro-me de toda minha vida. Nasci em 8 de setembro de 1980, sou filha de Lena Ten\u00f3rio Albuquerque e de H\u00e9lio Ten\u00f3rio Albuquerque, estudei no Col\u00e9gio Divino Mestre, fiz faculdade de letras e me casei com Albert Johnes, meu professor de ingl\u00eas. Tive com ele dois filhos, fomos passar as f\u00e9rias na Calif\u00f3rnia e l\u00e1 aconteceu o acidente.<br \/>\nEle olhava incr\u00e9dulo pra ela, sabia que havia algo de errado com ela. Talvez mais uma seq\u00fcela da queda da piscina. Ela pulara do alto do trampolim de mal jeito e se chocara com a escada de inox. Talvez tenha batido a cabe\u00e7a e ficado com amn\u00e9sia&#8230; Os m\u00e9dicos explicariam.<br \/>\n&#8211; Helena, voc\u00ea s\u00f3 tem dezoito anos meu bem. Nem entrou na faculdade ainda. Estava saltando na piscina quando se machucou. Voc\u00ea nunca foi casada, nem teve filhos. Eu sei porque namoramos desde nossos dez anos.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea s\u00f3 pode estar brincando. Eu n\u00e3o sou quem eu sei que sou? \u00c9 isto?<br \/>\n&#8211; Meu amor, veja isso, talvez te ajude a se lembrar \u2013 ele retirou da carteira uma foto e mostrou a ela, sabendo que ela n\u00e3o tinha como segur\u00e1-la.<br \/>\nNa foto uma morena de cabelos lisos e olhos amendoados lindamente maquilados exibia uma alian\u00e7a com um diamante lindo cravado no dedo direito enquanto abra\u00e7ava o mesmo homem que lhe mostrava a foto.<br \/>\n&#8211; Mas esta n\u00e3o sou eu. Voc\u00ea \u00e9 idiota? Eu sou loira!<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea nunca foi loira, Leninha&#8230;<br \/>\nEle foi at\u00e9 o criado mudo, abriu uma das gavetas e tirou um espelho. Trouxe at\u00e9 ela e lhe exibiu o pr\u00f3prio rosto. E Helena por mais que visse o rosto jovem de uma morena, ainda sentia as rugas da idade e toda a carga hist\u00f3rica da loira que era.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Luan Silva<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Postado no RLS em 20\/02\/2011 (&#8230;) \u201cAs madeixas louras da m\u00e3e se contorciam no frenesi da dor e do espanto. Como se toda a desgra\u00e7a que j\u00e1 se abateu no mundo houvesse se transformado num dem\u00f4nio e estivesse espancando cada mil\u00edmetro do seu corpo e torturando sua alma com l\u00e2minas finas e mortais. \u2013 Albert! 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