{"id":169,"date":"2014-04-06T20:07:12","date_gmt":"2014-04-06T20:07:12","guid":{"rendered":"http:\/\/oespelhonegro.wordpress.com\/?p=169"},"modified":"2014-04-06T20:07:12","modified_gmt":"2014-04-06T20:07:12","slug":"a-voz-luan-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=169","title":{"rendered":"A Voz &#8211; Luan Silva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:center;\"><a href=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/elfa.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-170\" src=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/elfa.jpg?w=300\" alt=\"elfa\" width=\"300\" height=\"224\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Postado no RLS em 24\/02\/2011<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Sobre a cabe\u00e7a dos homens, l\u00e1 estava ele. Num palanque mal colocado pelas meninas do bairro. Soltando aquelas palavras de orgulho, for\u00e7a e esperan\u00e7a. Dando promessas e um resqu\u00edcio de vitalidade aos olhos marejados e cora\u00e7\u00f5es aflitos do povo, o qual muitos haviam desprezado.<br \/>\nEu, de longe, apenas o fitava com os olhos vivos em um verde esmeralda \u2013 que para ele n\u00e3o transmitiam nenhuma mensagem. Para mim, aquele olhar desencadeava todos os c\u00f3digos da minha alma e ess\u00eancia. Algo t\u00e3o intenso, t\u00e3o soberbo, t\u00e3o lotado de si&#8230; Assim como se fosse uma c\u00f3lera de raiva t\u00e3o vil que superava o \u00f3dio que se impregnava no cora\u00e7\u00e3o dos homens.<br \/>\nAs palmas evasivas que o povo alucinado doava para aquele sujeito n\u00e3o incomodavam em nada o vazio silencioso em que minha mente se interiorizou. Os meninos corriam de um lado para o outro, fazendo de uma garrafa pl\u00e1stica uma bola. As meninas num banco apenas olhavam tudo abestalhadas enquanto saboreavam o doce algod\u00e3o doce.<br \/>\nA vis\u00e3o perif\u00e9rica do mundo me seduzia e a imagem dele me encantava, entre o encanto e a sedu\u00e7\u00e3o \u2013 eu me lembrava bem \u2013, eu escolhi a magia.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Travei a porta do carro, aguardei mais uns instantes. O suficiente para que todos dessem a ele os aplausos, assobios e gritos finais. Dei partida, apenas o observei descer a torta escada de madeira. Precedendo seus aliados, ele seguiu para o toldo onde mais dos seus o aguardavam com sorrisos falsamente esticados; com todos aqueles apertos de m\u00e3o e parabeniza\u00e7\u00f5es t\u00e3o exacerbadas que logo denunciavam sua invalidez.<br \/>\n<em>\u201cN\u00e3o vai parabeniz\u00e1-lo?\u201d<\/em> \u2013 A voz em minha mente foi t\u00e3o clara e aud\u00edvel que quase me fez olhar para os lados. Todavia aquela grave e rouca entona\u00e7\u00e3o feminina j\u00e1 me era t\u00e3o familiar que eu apenas dei um sorriso zombeteiro.<br \/>\n<em>\u201cEle merece, conseguiu se livrar de tudo que n\u00f3s fizemos.\u201d<\/em> \u2013 A ang\u00fastia e a frustra\u00e7\u00e3o perfuraram ainda mais meu cora\u00e7\u00e3o. Senti o meu sangue putrificado escorrer das minhas art\u00e9rias negras e jorrar pelos meus olhos em l\u00e1grimas cristalinas.<br \/>\n<em>\u201cOra! N\u00e3o me venha com essas lamenta\u00e7\u00f5es fingidas agora! Fizemos e ponto!\u201d<\/em> \u2013 O carro lentamente come\u00e7ou a sair da in\u00e9rcia. Agradecida pelos vidros serem negros e esconderem minha identidade, fui tirando o p\u00e9 do freio. Nenhum daqueles pobres coitados enganados por seus sonhos, poderia me parar e me levar ao fundo do po\u00e7o, como em breve chegariam.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">&#8211; Al\u00f4 \u2013 falei baixo com o telefone ao ouvido.<br \/>\n&#8211; Vai simplesmente fugir, assim como o diabo foge da cruz?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tenho mais o que fazer aqui, Alexandra.<br \/>\n&#8211; Isso n\u00e3o acabou e voc\u00ea sabe.<br \/>\n&#8211; Acabou pra mim, n\u00e3o pense que vou me envolver ainda mais nessa trama.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o penso, tenho certeza. Voc\u00ea \u00e9 quem mais se envolveu e acha que ir embora vai destruir os la\u00e7os entre todos n\u00f3s? O que Ela lhe diz?<br \/>\n&#8211; Apenas me culpa. Ap\u00f3s ter me ensinando que de nada tenho culpa.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o minta pra mim.<br \/>\n&#8211; Alexandra, cansei de vozes na minha cabe\u00e7a. Nada que voc\u00eas fa\u00e7am ou digam poder\u00e1 me fazer voltar atr\u00e1s.<br \/>\n&#8211; Eu n\u00e3o estaria t\u00e3o certa se fosse voc\u00ea.<br \/>\n&#8211; Nisso eu vejo uma coisa muito evidente. Voc\u00ea n\u00e3o tem capacidade de se igualar a mim. Voc\u00ea sabe das minhas habilidades. N\u00e3o as subestime. Apenas deixe-me ir em paz.<br \/>\n&#8211; A paz \u00e9 para os fracos.<br \/>\n&#8211; A guerra \u00e9 para os tolos&#8230;<br \/>\n<em>\u201cO muro que divide essas for\u00e7as pertence aos Deuses! Se mantenha nele!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Estas foram as \u00faltimas palavras antes que o sinal de telefonia fosse cortado pela vegeta\u00e7\u00e3o seca do interior nordestino. Joguei o telefone para o lado e voltei minha aten\u00e7\u00e3o para a estrada de barro e o canavial que me rodeava.<br \/>\n<em>\u201cAcha mesmo que exageramos, n\u00e3o \u00e9?\u201d<\/em> \u2013 Demoraria, mas eu ainda iria conseguir ignorar esta voz \u2013 <em>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe de nada. Desconhece tudo o que eu tenho a possibilidade de moldar. Eu sei o que estou fazendo. Confie, apenas confie.\u201d<\/em><br \/>\nLiguei o som do carro. Era surpreendente como as r\u00e1dios daquela cidade se assemelhavam. Todas tocavam as mesmas m\u00fasicas, as mesmas baladas, as mesmas cumbias e os mesmos forr\u00f3s. Essa viagem estava me cansando&#8230;<br \/>\n<em>\u201cVoc\u00ea sabe que n\u00e3o consegue parar de me ouvir&#8230; Desista!\u201d<\/em> \u2013 Como se uma nuvem escura tivesse se materializado dentro do meu carro, me vi sem vis\u00e3o alguma. Apenas uma nebulosa negra que logo formou a lembran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Nos bra\u00e7os dele, eu sentia todo o calor e o suor de seu corpo se mesclarem com os meus. Entre os nossos len\u00e7\u00f3is todas as palavras rom\u00e2nticas, sedutoras, juras e mentiras de amor se deliciavam junto a n\u00f3s num prazer acima dos limites humanos. Era algo transcendental. Eu poderia ver seus olhos em meus olhos e meus olhos por seus olhos. \u00c9ramos um, \u00e9ramos dois, \u00e9ramos mil&#8230; Seu abra\u00e7o me convencia que aquela louca liberdade era segura; meu colo garantia que sua loucura ficasse livre e como animais que seguem o ciclo irracional do cio do planeta, n\u00f3s nos amamos.<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\">(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Quando voltei a mim, o carro estava entre as canas, cerca de tr\u00eas quil\u00f4metros distantes da estrada. Eu estava mais p\u00e1lida que o normal, suando frio e sentindo o prazer da lembran\u00e7a ali no presente.<br \/>\n<em>\u201cVai mesmo deixar tudo nas m\u00e3os dos outros, quando apenas voc\u00ea tem a solu\u00e7\u00e3o para o nosso problema?\u201d<\/em><br \/>\n&#8211; Mas eu falhei, droga! Eu falhei! Pus tudo a perder! N\u00e3o consegui!<br \/>\n<em>\u201cVoc\u00ea conseguiu despertar naquele homem o melhor dos sentimentos poss\u00edveis, deu a ele a oportunidade de sentir a energia divina em cada \u00e1tomo da reles exist\u00eancia dele. Dou sabedoria que s\u00f3 os antigos praticavam. Vai mesmo desistir quando se mostrou mais capaz que eu mesma?\u201d<\/em><br \/>\nParei por um segundo. Eu j\u00e1 n\u00e3o entendia mais minha fun\u00e7\u00e3o naquele jogo de poder. Mesmo quando tudo come\u00e7ou, eu me sentia num jogo de xadrez, sendo a rainha e um desconhecido at\u00e9 ent\u00e3o era meu rei. Aos poucos como na vida feliz de um homem, as coisas foram fazendo sentido e cada a\u00e7\u00e3o era mais uma pe\u00e7a de um quebra cabe\u00e7a. Por vezes uma pe\u00e7a mal colocada colocava toda a perfeita geometria a perder e todo sentido era alterado. Mas eu sempre estava l\u00e1, com ele. Sendo a mulher dos seus sonhos, a provedora de suas conquistas, a bruxa que lhe era madrinha, mas tudo ocultado por imagens falsas de serventes.<br \/>\n&#8211; E o que voc\u00ea quer que eu fa\u00e7a? \u2013 falei para a voz.<br \/>\n<em>\u201cSiga-o, siga o caminho que ele trilhar\u00e1 como uma Sombra.\u201d<\/em><br \/>\n&#8211; Quer que eu deixe minha cren\u00e7a para seguir a cren\u00e7a dele s\u00f3 por um capricho seu?<br \/>\n<em>\u201cQuero que voc\u00ea esteja ao lado dele. Se for necess\u00e1rio deixar de lado nossa ess\u00eancia magia, esse \u00e9 o pre\u00e7o a ser pago. Ou ele n\u00e3o \u00e9 o amor de sua vida?\u201d<\/em><br \/>\n&#8211; Sim, \u00e9 o amor DESTA vida. E quanto as outras? N\u00e3o ser\u00e3o afetadas pela minha desist\u00eancia?<br \/>\n<em>\u201cQuem falou em desistir? Voc\u00ea s\u00f3 vai se aventurar em outras terras, sabendo onde \u00e9 sua casa. Sabendo suas origens.\u201d<\/em><br \/>\n&#8211; E se eu me perder?<br \/>\n<em>\u201cAcha mesmo que permitirei tal coisa?\u201d<\/em><br \/>\nFoi estranho quando o telefone come\u00e7ou a tocar. Ali no meio do nada, onde a rede n\u00e3o deveria pegar. Mais estranho ainda, foi ver o nome dele no visor e ouvir a m\u00fasica que segundo ele nos representava nos chamando.<br \/>\nFiquei muda.<br \/>\n&#8211; Te senti hoje&#8230; Sei que estava l\u00e1. E sei tamb\u00e9m porque n\u00e3o foi me ver.<br \/>\n&#8211; Se sabe, porque me ligou? Qual a pergunta que vai me fazer agora?<br \/>\n&#8211; Quero saber por que voc\u00ea desistiu de mim.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea pediu isso. Pediu que eu deixasse voc\u00ea seguir seu caminho.<br \/>\n&#8211; Mas tamb\u00e9m pedi que n\u00e3o deixasse que eu me perdesse.<br \/>\n&#8211; O que o faz crer que se perdeu?<br \/>\n&#8211; Perdi voc\u00ea&#8230;<br \/>\n&#8211; E&#8230; \u2013 quase n\u00e3o consegui falar \u2013 Porque n\u00e3o volta pra mim, n\u00e3o volta para o seu Lar?<br \/>\n&#8211; Tenho medo.<br \/>\n&#8211; De mim? Do que voc\u00ea \u00e9 e sempre vai ser?<br \/>\n&#8211; De me encontrar e ver-me em um local desconhecido e indesej\u00e1vel.<br \/>\nSenti o rubor e o poder da voz da nossa Rainha em meu peito, e falei com ela as palavras para um de nossos seres perdidos.<br \/>\n<em>\u201c- \u00c9 um risco que todos os de sangue fe\u00e9rico tem de correr at\u00e9 ver que desejou e nasceu do desconhecido. E que o indesej\u00e1vel, na verdade, \u00e9 tudo o que se mais quer. Volte pra casa&#8230; Volte para n\u00f3s.\u201d<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n<p style=\"text-align:justify;\">Luan Silva<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Postado no RLS em 24\/02\/2011 Sobre a cabe\u00e7a dos homens, l\u00e1 estava ele. Num palanque mal colocado pelas meninas do bairro. Soltando aquelas palavras de orgulho, for\u00e7a e esperan\u00e7a. Dando promessas e um resqu\u00edcio de vitalidade aos olhos marejados e cora\u00e7\u00f5es aflitos do povo, o qual muitos haviam desprezado. 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