{"id":434,"date":"2014-04-10T19:37:35","date_gmt":"2014-04-10T19:37:35","guid":{"rendered":"http:\/\/oespelhonegro.wordpress.com\/?p=434"},"modified":"2014-04-10T19:37:35","modified_gmt":"2014-04-10T19:37:35","slug":"duas-bruxas-um-conto-de-fadas-moderno-do-oficio-mike-nichols","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=434","title":{"rendered":"Duas Bruxas, um Conto de Fadas Moderno do Of\u00edcio &#8211; Mike Nichols"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\"><a href=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/tumblr_lawoihdklr1qzxf0qo1_500.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-435 aligncenter\" src=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/tumblr_lawoihdklr1qzxf0qo1_500.jpg?w=300\" alt=\"tumblr_lawoihDKLR1qzxf0qo1_500\" width=\"300\" height=\"208\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\"><em>Postado no RLS em 11\/06\/2012<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Era uma vez, duas bruxas. Uma era feminista e a outra tradicionalista. Embora ambas fossem profundamente religiosas, havia muitos pontos e id\u00e9ias dos quais discordavam sobre o que significava a religi\u00e3o.<\/p>\n<p>A bruxa feminista acreditava que a Bruxaria era uma religi\u00e3o a ser praticada unicamente por mulheres, pois a imagem da Deusa era uma fortaleza e poderosa arma contra a tirania patriarcal. E em seu cora\u00e7\u00e3o brotou a semente da desconfian\u00e7a sobre a bruxa tradicionalista, pois do ponto de vista feminista, a bruxa tradicionalista parecia subversiva e uma amea\u00e7a \u00e0 \u201ccausa\u201d.<\/p>\n<p>A bruxa tradicionalista tendia a acreditar que a bruxaria era uma religi\u00e3o para todos, independente de sexo, pois, nada era mais divis\u00f3rio. E embora a Deusa devesse ser adorada, todos deveriam ficar atentos para serem igualit\u00e1rios nos cultos ao Deus tamb\u00e9m presente na natureza e conhecido como o Chifrudo . E em seu cora\u00e7\u00e3o brotou a semente da desconfian\u00e7a sobre a bruxa feminista, pois do ponto de vista tradicionalista, a bruxa feminista parecia retardat\u00e1ria e uma amea\u00e7a \u00e0 \u201cTradi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As duas bruxas viviam na mesma comunidade, mas cada uma pertencia a um Coven diferente, por isso n\u00e3o se viam frequentemente.<br \/>\nEstranho dizer, que em algumas ocasi\u00f5es elas se respeitavam bastante e sentiram uma incomum e m\u00fatua sensa\u00e7\u00e3o de atra\u00e7\u00e3o, pelo menos a n\u00edvel f\u00edsico. Por\u00e9m, ambas reconheceram loucura nesta atra\u00e7\u00e3o. Em suas concep\u00e7\u00f5es, seus mundos eram separados e nada parecia capaz de lig\u00e1-los.<\/p>\n<p>Mais tarde, a comunidade decidiu realizar um Grande Encontro de Covens numa floresta pr\u00f3xima \u00e0 comunidade, e todos os Covens da \u00e1rea foram convidados a participar. Ap\u00f3s os ritos, os cantos, os encantamentos, os festejos, a poesia e a dan\u00e7a circular terem sido conclu\u00eddos, todos se recolheram em seus aposentos e sacos de dormir. Todos, menos as duas bruxas.<br \/>\nElas foram perturbadas por suas diferen\u00e7as e tiveram ins\u00f4nia por isso. Permaneceram sozinhas ao redor da fogueira enquanto todos vagavam em sonhos. Em pouco tempo come\u00e7aram a comentar sobre os diversos pontos em que elas n\u00e3o concordavam. E para comprovar a inexperi\u00eancia das duas, elas come\u00e7aram a discutir a verdadeira face da Deusa.<\/p>\n<p>\u2018Descreva a sua face da Deusa para mim\u2019 \u2013 desafiou a bruxa feminista.<br \/>\nA tradicionalista sorriu, suspirou e disse num murm\u00fario ma\u00e7ante:<\/p>\n<p>\u2018Ela \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da beleza de tudo. A quintess\u00eancia do sagrado feminino. Eu visualizo com os cabelos loiros como a prata do luar, cheio e espesso caindo sobre os ombros suaves. Ela tem o corpo jovem sensual de uma donzela no auge de sua vol\u00fapia. Suas vestes s\u00e3o sedutoras, t\u00eanues, finas e justas ao seu quadril esbelto. Vejo sua dan\u00e7a como a de uma ninfa \u00e9lfica numa clareira iluminada pela Lua. A dan\u00e7a das sacerdotisas sagradas do Templo. E ela seduz assim o seu amante, o Deus de Chifres, com sua voz suave, macia, doce e mel\u00f3dica ela o encanta enquanto canta ao som de um sino prata meio fosco com gelo. Ela \u00e9 Freyja, a Deusa do mor e da Sensualidade. E seu amante vem ao seu deleite, pois \u00e9 seu destino ser a Grande-M\u00e3e, geradora de tudo. \u00c9 assim que vejo a Deusa.\u2019<\/p>\n<p>A bruxa feminina soltou uma gargalhada alta e disse:<br \/>\n\u2018Sua Deusa \u00e9 uma Barbie C\u00f3smica! O arqu\u00e9tipo Junguiano de uma l\u00edder de torcida! Ela \u00e9 todo Glamour e nada al\u00e9m disso. Onde est\u00e1 sua for\u00e7a? Onde est\u00e1 o seu poder? Eu a vejo a deusa de forma muito diferente.<br \/>\nPara mim, Ela \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a, coragem e soberania. Um s\u00edmbolo vivo do poder e sabedoria coletiva de todas as mulheres do universo. A visualizo com o cabelo t\u00e3o negro como uma noite escura, num corte curto para facilitar os cuidados nos campos de batalha. Ela tem um corpo musculoso de uma mulher no auge de sua sa\u00fade e fitness. Suas vestes s\u00e3o praticas e sensatas. Nada de vestidos colados. Ela n\u00e3o pinta seu rosto, perfuma sua nuca ou raspa suas pernas para alimentar a vaidade dos homens. Ela n\u00e3o faz dan\u00e7as er\u00f3ticas para atrair homens o seu colo. Ela chama o macho pela sua voz forte e desafiadora. E faz isso para lutar contra a repress\u00e3o do ego masculino. Ela \u00e9 a Artemis ca\u00e7adora. Ela \u00e9 fatal para qualquer homem que lhe lan\u00e7ar um olhar nefasto. Embora seja aquela que nos nutre, ela \u00e9 tamb\u00e9m Crone, a S\u00e1bia, que destr\u00f3i a velha ordem. \u00c8 assim que vejo a deusa.\u2019<\/p>\n<p>Foi a vez da tradicionalista gargalhar e dizer:<br \/>\n\u2018Sua Deusa vai de encontro a tudo o que \u00e9 feminino. Ela \u00e9 jav\u00e9 escondido atr\u00e1s de uma m\u00e1scara feminina. N\u00e3o se esque\u00e7a de que foram seus seguidores que queimaram as bruxas na fogueira por ser \u201cpecado\u201d ter \u201ccaras pintadas\u201d. Afinal, bruxas com seus conhecimentos herb\u00e1ceos desenvolveram a arte dos cosm\u00e9ticos. Ainda assim&#8230; Onde est\u00e1 a beleza? O Amor e o desejo?<br \/>\nNesta troca de argumentos foram varando a noite. At\u00e9 que o som de suas vozes despertou um Anci\u00e3o de um dos Covens que dormia pr\u00f3ximo dali. O velho se aproximou delas e encarou uma e depois a outra em um perfeito sil\u00eancio. Ent\u00e3o ele sugeriu que ambas dessem uma volta na floresta em dire\u00e7\u00f5es opostas e por meios m\u00e1gicos e meditativos buscassem a verdadeira face da Deusa. Ao concordarem, sa\u00edram uma para cada dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um tempo de invoca\u00e7\u00e3o, altera\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia e medita\u00e7\u00e3o, houve um momento de quietude plena. Logo em seguida um lampejo de luz foi projetado na floresta. Uma luz forte em contraste com o verde denso da folhagem. As duas sa\u00edram correndo na dire\u00e7\u00e3o em que a luz se projetou. Admiradas e espantadas, elas descobriram que a deusa havia se materializado numa clareira diretamente para elas, mas ainda assim entre elas.<br \/>\nA tradicionalista gritou: \u2018Eu te avisei!\u2019 ao mesmo tempo em que a feminista berrou \u2018Veja! Eu estava certa!\u2019. E elas n\u00e3o se ouviram.<\/p>\n<p>Para a bruxa feminista, a Deusa parecia ser uma matriz iluminada de poder e for\u00e7a, com coragem e energia que flui mundo afora. A deusa parecia estar lhe estendendo os bra\u00e7os para um abra\u00e7o, como uma Valqu\u00edria amiga de batalhas.<br \/>\nPara a bruxa tradicionalista, a Deusa parecia ser o auge da beleza feminina, tocando uma harpa suavemente e cantando a can\u00e7\u00e3o sedutora das sirenas. A nergia parecia fluir para com ela. E ela parecia convidar a bruxa para um abra\u00e7o apertado.<\/p>\n<p>De lados opostos, as bruxas correram em dire\u00e7\u00e3o a Face da Deusa que tanto amavam. Desejando do fundo da alma o \u00eaxtase divino que tal abra\u00e7o poderia ofertar. Mas pouco antes de tocarem os dedos da deusa, a vis\u00e3o se desfez.<\/p>\n<p>Assustadas com tudo, as bruxas se viram em um forte enlace de bra\u00e7os perfeito.<br \/>\nSegundos depois, ambas puderam ouvir dos recantos mais silenciosos da floresta, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade a voz da Deusa. E finalmente concordaram que aquilo estranhamente soava de maneira igual para ambas.<br \/>\nSoava como um sorriso&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<p><i>\u00a0Mike Nichols (traduzido e adaptado por Luan Silva)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Postado no RLS em 11\/06\/2012 Era uma vez, duas bruxas. Uma era feminista e a outra tradicionalista. Embora ambas fossem profundamente religiosas, havia muitos pontos e id\u00e9ias dos quais discordavam sobre o que significava a religi\u00e3o. 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