{"id":653,"date":"2014-08-05T00:50:36","date_gmt":"2014-08-05T03:50:36","guid":{"rendered":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=653"},"modified":"2014-06-02T22:04:02","modified_gmt":"2014-06-03T01:04:02","slug":"cronicas-della-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=653","title":{"rendered":"Cr\u00f4nicas D&#8217;Ella &#8211; III"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/311627_1992845268146_1453839412_31627414_206988858_n.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter  wp-image-654\" src=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/311627_1992845268146_1453839412_31627414_206988858_n.jpg\" alt=\"311627_1992845268146_1453839412_31627414_206988858_n\" width=\"386\" height=\"521\" srcset=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/311627_1992845268146_1453839412_31627414_206988858_n.jpg 533w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/311627_1992845268146_1453839412_31627414_206988858_n-222x300.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 386px) 100vw, 386px\" \/><\/a><\/h1>\n<h1 style=\"text-align: center;\">III<\/h1>\n<p>Filosofias \u00e0 parte&#8230; N\u00e3o sou uma gar\u00e7onete, prostituta, ou qualquer dessas mulheres que trabalham de empregos \u201cnormais\u201d na pacata vida da literatura contempor\u00e2nea, e at\u00e9 de um tempo anterior. Pois sim, tenho ci\u00eancia que sou a cria\u00e7\u00e3o da mente de algum louco, mas com certeza n\u00e3o de um s\u00f3. Sou parte de um grupo de id\u00e9ias do Mundo dos Pensamentos, como diriam alguns esot\u00e9ricos e m\u00edsticos. Sou parte do inconsciente coletivo e posso ser vista em v\u00e1rias personagens em incont\u00e1veis livros, mas mais que isso&#8230; Sou parte de voc\u00ea.<\/p>\n<p>E pare por a\u00ed.<\/p>\n<p>N\u00e3o tente me identificar, ou me esconder, decodificar ou coisa assim. A raz\u00e3o e a l\u00f3gica dos pensamentos tiram a sublime naturalidade da qual fluo como uma nascente. Sintam-me, sintam a boa sensa\u00e7\u00e3o que eu sou. Este \u00e9 o mist\u00e9rio da felicidade.<\/p>\n<p>Humanos t\u00eam uma grande facilidade em sentir aquilo que os causa dor, \u00e9 incr\u00edvel como algu\u00e9m que finge estar triste, ou acha estar triste, fica realmente triste. Mas tente fingir estar alegre a uma agonia vai se precipitar diante de voc\u00ea lhe engolindo com melancolias exacerbadas. Quando conseguir, e realmente conseguir, sentir a felicidade, n\u00e3o procurando a causa dela, ou sua finalidade, apenas sorrindo ou chorando, voc\u00ea sentir\u00e1 a mesma sensa\u00e7\u00e3o que pular de bung-jump. Ah! Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria maravilhosa! Vale a pena ser lida, ouvida, ou seja l\u00e1 como voc\u00ea a sentir\u00e1. Mas imagine&#8230;<\/p>\n<p>Oito garrafas de vodka, um show de rock, maconha, algumas comidas estranhas e de conserva e uma viagem programada para uma praia deserta.<\/p>\n<p>Paulo foi um dos meus parceiros mais loucos da vida. Digamos que com ele eu vivi toda uma hist\u00f3ria delinq\u00fcente. Desde experimentar o \u201csucesso\u201d nas ladeiras de Olinda num dos carnavais mais sem no\u00e7\u00e3o da vida at\u00e9 este dia.<\/p>\n<p>Ele me ensinou a furtar, roubar, como fazer pequenas traquinagens e malandragens da rua. Apresentou-me \u00e0s pessoas erradas que em determinadas horas eram as mais certas, enfim&#8230; Virei uma garota de rua com todas as suas qualidades, defeitos e fedor.<\/p>\n<p>Diria que ele foi um dos E.C. mais importantes, pois com ele eu cheguei ao fim do po\u00e7o, a quase entrega completa a uma vida alienada, o que n\u00e3o \u00e9 absolutamente nada comparado a qualquer coisa.<\/p>\n<p>Sim, era divertido beber um litro de aguardente e fumar todas a cada encruzilhada do Recife Antigo, assim como transar sem camisinha (e quem lembrava dela?) no meio da rua numa madrugada de s\u00e1bado. Hoje me pergunto qual prazer aquilo me proporcionava. Tudo era t\u00e3o vazio, t\u00e3o gelatinoso, pegajoso e \u00famido que eu podia sentir-me mofada por dentro e cheia de fungos.<\/p>\n<p>Mas voltando&#8230; Depois de beber todas no show, n\u00f3s pegamos a moto e sa\u00edmos do Armaz\u00e9m 14, no Recife Antigo direto para o pequeno apartamento na Boa Vista que Paulo e seus amigos alugaram para os ensaios da banda de reggae deles. Transamos, dormimos e quando nos acordamos, ainda dopados, bebemos ainda mais e algu\u00e9m nos chamou para um lugar a\u00ed, que juro n\u00e3o lembrar qual o nome. S\u00f3 sei que era uma praia (ou seria uma cachoeira?) Todos fomos ent\u00e3o para l\u00e1. A minha mente n\u00e3o conseguia mais pensar\u00a0em nada. O\u00a0vazio era t\u00e3o extenso nela que eu se pensasse ouviria o eco do pensamento.<\/p>\n<p>Vimos um pessoal pulando de bung-jump de cima de um antigo trilho para trem. E nossa! Como aquilo era alto! Algo dentro de mim se revirou no caos profundo e eu sei que nitidamente quis pular l\u00e1 de cima. Todos tentaram evitar minha subida, mas Paulo como sempre me acompanhou at\u00e9 o \u00faltimo momento.<\/p>\n<p>Subimos at\u00e9 os trilhos e vimos l\u00e1 de cima toda a mata, a estrada de onde sa\u00edmos ao longe e aquele imenso verde em movimento que era o rio que cortava a cidade (n\u00e3o me pergunte o nome). Cheguei no grupo e perguntei o que eu deveria fazer para que eles me deixassem pular uma vez. Eles, s\u00f3brios talvez, disseram que pelo meu estado n\u00e3o era legal, era perigoso e que eu poderia morrer. Eu insisti, disse que estava bem e eles colocaram o equipamento em mim.<\/p>\n<p>Eu rezei, para qualquer coisa que garantisse minha vida e pedi que ao pular o desejo de liberdade que eu tanto buscava me tomasse por completa.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me ouviu.<\/p>\n<p>Saltei ao mesmo tempo em que gritei loucamente, ver aquele verde borrado se aproximar de n\u00f3s \u00e9 extremamente assustador e nos faz pensar em tudo que n\u00f3s vivemos. E realmente vemos aquele filminho de nossa vida. Com a adrenalina o efeito das drogas passou e por um breve momento eu me senti s\u00f3bria, viva e completamente livre, mesmo que amarrada.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia som, as cores ao meu redor se mesclavam com o verde dominante e tudo se balan\u00e7ava e saltava. E como se fosse exorcizada senti um peso enorme cair e mergulhar na \u00e1gua, onde se afogou e deixou uma ligeira mancha vermelha na parede verde.<\/p>\n<p>Aquilo foi Paulo e toda a minha vers\u00e3o delinq\u00fcente. E eu reencontrei a verdadeira liberdade que move nossas almas, senti a mais profunda sensa\u00e7\u00e3o de medo, morte e vida. Fora por uma part\u00edcula de tempo, mas a adrenalina me matou e me fez renascer ali mesmo. E eu vi a parede verde d\u2019\u00e1gua, que iria destruir minha vida e meu ser, expandi-los na eternidade com aquela sensa\u00e7\u00e3o \u00fanica que eu chamei de Deus. Senti o pux\u00e3o da corda e quando voltei e olhei o cara que me acolheu, o chamei de Estranho Conhecido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>III Filosofias \u00e0 parte&#8230; N\u00e3o sou uma gar\u00e7onete, prostituta, ou qualquer dessas mulheres que trabalham de empregos \u201cnormais\u201d na pacata vida da literatura contempor\u00e2nea, e at\u00e9 de um tempo anterior. Pois sim, tenho ci\u00eancia que sou a cria\u00e7\u00e3o da mente de algum louco, mas com certeza n\u00e3o de um s\u00f3. 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