{"id":865,"date":"2020-01-30T19:17:31","date_gmt":"2020-01-30T22:17:31","guid":{"rendered":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=865"},"modified":"2020-01-30T19:17:31","modified_gmt":"2020-01-30T22:17:31","slug":"reflexosnegros-001-cultos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=865","title":{"rendered":"#reflexosnegros 001 &#8211; Cultos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257.jpg\" class=\"wp-image-864 alignnone size-full\" width=\"1564\" height=\"1564\" srcset=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257.jpg 1564w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-150x150.jpg 150w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-300x300.jpg 300w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-768x768.jpg 768w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-120x120.jpg 120w, https:\/\/oespelhonegro.com\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/IMG_20200130_121257-80x80.jpg 80w\" sizes=\"(max-width: 1564px) 100vw, 1564px\" \/><\/p>\n<p>Algumas pessoas estranham sempre que falo sobre a minha espiritualidade\/religiosidade. Afinal, como pode um negro que se diz afrocentrado n\u00e3o praticar uma religiosidade afro? E pior! Como pode esse mesmo negro praticar uma religiosidade euroc\u00eantrica?<\/p>\n<p>Muitas das respostas que eu obtive s\u00e3o oriundas de reflex\u00f5es da minha pr\u00f3pria viv\u00eancia como negro que sofreu embranquecimento da inf\u00e2ncia \u00e0 adolesc\u00eancia. Outras s\u00e3o vindas das viv\u00eancias sacerdotal, espiritual e ancestral. Aparentemente uma coisa s\u00f3, mas n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>Baseado nesses pontos, decidi fazer paralelos entre a divindade e o orix\u00e1 que tenho mais liga\u00e7\u00f5es e falar sobre meu culto pessoal, ancestral e oficial. Vai ser interessante, e garanto que bonito.<\/p>\n<p><strong>Umbanda &#8211; Ancestralidade direta<\/strong><\/p>\n<p>Meu pai, negro retinto, sempre foi beato cat\u00f3lico. N\u00e3o sei exatamente em que ponto da vida ele come\u00e7ou a frequentar o Umbanda, s\u00f3 sei que desde que me entendo por gente, minha vida religiosa foi dentro de terreiros, vendo minha m\u00e3e (que seguiu a f\u00e9 mista do meu pai) incorporar e eles cumprindo de forma superficial as obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Simult\u00e2neamente, pela realidade crist\u00e3 brasileira, o catolicismo era outro vi\u00e9s (superficial) da minha vida. Acreditava no Deus Abraamico, Jesus Cristo e santos e santas, ao mesmo tempo que reverenciava Orix\u00e1s e entidades da Jurema\/Candombl\u00e9. Dessas entidades destaco cinco: duas ligadas a meu pai, duas a minha m\u00e3e e uma que foi atribu\u00edda a n\u00f3s para prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos 11 anos, descobri os fardos de ser negro retinto, ser gay e ser pobre e tive depress\u00e3o. Rejeitei a religiosidade crist\u00e3 que condenava a minha sexualidade e por temer que as entidades revelasse que sou gay aos meus pais (uma tinha j\u00e1 dado a entender que sabia) me afastei dos terreiros tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Todavia, eu sempre senti uma fagulha medi\u00fanica em mim. E mais que isso: sempre senti um chamado espiritual e da magia muito forte. S\u00f3 que pelos meus medos e por preconceito, eu nunca explorei a f\u00e9 afro de forma submers\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>Wicca\/Wanen &#8211; Sacerd\u00f3cio<\/strong><\/p>\n<p>Acabei direcionando tudo isso para a Wicca, que conheci no mesmo per\u00edodo dos surtos depressivos quase fatais. Nela, eu descobri outro sentido de vida, onde eu podia viver minha sexualidade, minha verdade, minha rebeldia e todas as minhas \u00e2nsias espirituais eram parcialmente saciadas.<\/p>\n<p>Parcialmente porque a Wicca foi parte de um processo transicional. Passei por todo o processo inici\u00e1tico at\u00e9 me tornar Sumo-sacerdote de um Coven (grupo de bruxos), mas a sensa\u00e7\u00e3o de que algo faltava estava ainda l\u00e1. E por isso\/com isso, ela foi porta para que eu conhecesse Wagner Perico aos meus 16 anos.<\/p>\n<p>Com o Wagner, conheci a Wanen, uma Tradi\u00e7\u00e3o de Bruxaria Germ\u00e2nica. Nela eu descobri minha voca\u00e7\u00e3o sacerdotal, e passei por um processo de renascimento espiritual durante 12 anos da minha vida.<\/p>\n<p>A Wanen tem muita similaridade com o Candombl\u00e9. Assim como nele, que cada pessoa tem uma liga\u00e7\u00e3o direta com um Orix\u00e1, na Wanen temos nossa ess\u00eancia ligada a uma divindade. Essa liga\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial e imut\u00e1vel. Ent\u00e3o n\u00e3o importa quantas vidas eu j\u00e1 tenha tido e quantos tipos de f\u00e9 eu professei, eu sempre fui ligado a mesma energia divina.<\/p>\n<p>No meu caso, sou ligado a Mard\u00f6ll (mard\u00f3l, significa &#8216;aquela que brilha sobre o mar&#8217;), principal divindade e l\u00edder dos Deuses Wanen. Ela \u00e9 mais conhecida pelo nome Freyja (l\u00ea-se: Fr\u00e1ia)\/Freya\/Fr\u00e9ia. E \u00e9 basicamente retratada e cultuada como uma V\u00eanus\/Afrodite n\u00f3rdica. Na Wanen essas nuances e vis\u00f5es mudam, inclusive os mitos s\u00e3o reinterpretados.<\/p>\n<p>Mard\u00f6ll \u00e9 uma Deusa de muita abrang\u00eancia. Poderia fazer diversos paralelos com v\u00e1rias divindades. Mas vou resumir ela da forma mais simples e por palavras-chave.<br \/>\n&#8211; Cria\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; Beleza<br \/>\n&#8211; Magia<br \/>\n&#8211; Guerra<br \/>\n&#8211; Amor<\/p>\n<p><strong>Culto Afro &#8211; Ancestralidade Negra<\/strong><\/p>\n<p>Entre 2017 e 2018, eu completei o primeiro ciclo inici\u00e1tico da Wanen. Sa\u00ed do &#8220;Iniciante&#8221; para me tornar &#8220;Iniciado&#8221; e um dos processos guiados por essa inicia\u00e7\u00e3o foi o de resgate \u00e0 minha Ancestralidade. Literalmente, todos os 9 Deuses principais da Wanen estavam me mandando buscar minha ascend\u00eancia Negra.<\/p>\n<p>Fui. E assim como ouvi muitas vezes as pessoas dizerem, muitos dos pais e m\u00e3es de santo com quem tive contato diziam sentir que eu tinha uma energia muito ligada a Oxum, mas tamb\u00e9m similar a Logun Ed\u00e9.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a fazia sentido que eles interpretassem dessa forma. Inclusive, um grande amigo candomblecista, pelos buzios verificou essa &#8220;energia de Oxum&#8221; s\u00f3 que sentia que era uma Oxum diferente. Expliquei sobre Mard\u00f6ll e as similaridades e ele achou engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Fiquei certo que num n\u00edvel para al\u00e9m do cultural e do nome que se d\u00e1 \u00e0s energias divinas eu tinha uma liga\u00e7\u00e3o com essa quest\u00e3o da Beleza, da Magia e dos Nascimentos que tanto Oxum quanto Mard\u00f6ll possuem. Era minha ess\u00eancia, ent\u00e3o fazia sentido que ela fosse lida diferente pela realidade subjetiva de cada um.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que uma m\u00e3e de santo saiu dessa leitura e viu que Xang\u00f4 e Ians\u00e3 &#8220;brigavam pelo meu ori&#8221;. Estes s\u00e3o os orix\u00e1s dos meus pais e segundo ela, eles cobravam culto. Ela n\u00e3o sabia, mas j\u00e1 faziam no m\u00ednimo 8 anos que meus pais n\u00e3o frequentavam a Umbanda e negligenciaram tudo.<\/p>\n<p>Por raz\u00f5es que n\u00e3o vem ao caso, me vi obrigado a aprender de forma superficial sobre como cuidar daquelas entidades que falei no come\u00e7o e a prestar um culto simpl\u00f3rio aos Orix\u00e1s dos meus pais. O que cessou a &#8220;briga&#8221; e trouxe meu contato espiritual com minha Ancestralidade a um outro patamar.<\/p>\n<p>Enfim, essa explica\u00e7\u00e3o toda foi pra dizer que:<\/p>\n<p><em>1. Oficialmente e prioritariamente, meu Sacerd\u00f3cio \u00e9 Wanen, focado em Mard\u00f6ll e nas divindades Wanen.<\/em><\/p>\n<p><em>2. Tenho um culto de Ancestralidade ligado a esses tr\u00eas Orix\u00e1s (Oxum, Ians\u00e3 e Xang\u00f4). Nada que desrespeite ou me fa\u00e7a candomblecista. Mas os cultuo e presto as oferendas que me foram sugeridas pelos pais\/m\u00e3es de santo.<\/em><\/p>\n<p><em>3. Tenho um terceiro culto pessoal ligado \u00e0s entidades da Jurema\/Umbanda. Que seriam despachadas, por conta da neglig\u00eancia de anos dos meus pais. Todavia, uma delas, a qual sou mais ligado, sugeriu que queria ser cuidada por mim. Quando aceitei, todas vieram no bolo. E muitas, alguns amigos candomblecistas, disseram se tratar de ancestrais que se apresentaram daquela forma. Por isso, buscaram se ligar a mim.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 ainda complexo, mas como falei, a ci\u00eancia da realidade subjetiva me fez ampliar minhas leituras sobre o que \u00e9 cultural, o que \u00e9 sagrado, o que \u00e9 divino e o que \u00e9 espiritualidade sup\u00e9rflua.<\/p>\n<p>N\u00e3o me considero afrocentrado no \u00e2mbito da religiosidade, pois minha forma de contato ainda \u00e9 euroc\u00eantrica. Mas me vejo, ainda que de forma simplificada, ligado a minha Ancestralidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algumas pessoas estranham sempre que falo sobre a minha espiritualidade\/religiosidade. Afinal, como pode um negro que se diz afrocentrado n\u00e3o praticar uma religiosidade afro? E pior! Como pode esse mesmo negro praticar uma religiosidade euroc\u00eantrica? 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