{"id":99,"date":"2014-04-01T12:59:51","date_gmt":"2014-04-01T12:59:51","guid":{"rendered":"http:\/\/oespelhonegro.wordpress.com\/?p=99"},"modified":"2014-04-01T12:59:51","modified_gmt":"2014-04-01T12:59:51","slug":"reencontro-luan-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=99","title":{"rendered":"Reencontro &#8211; Luan Silva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\"><a href=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/23efc7_1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-100 aligncenter\" src=\"http:\/\/oespelhonegro.files.wordpress.com\/2014\/04\/23efc7_1.jpg?w=300\" alt=\"23EFC7_1\" width=\"300\" height=\"224\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align:right;\">Postado no RLS em 28\/10\/2010<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Meus passos eram lentos, minha visibilidade estava quase nula por conta da forte chuva que ca\u00eda sobre minha cabe\u00e7a. Eu observava borr\u00f5es apressados, debaixo de seus guarda-chuvas, lutando contra a brisa irritada e as l\u00e1grimas do c\u00e9u. Buscava entender porque tanta pressa, ou por qual raz\u00e3o eu estava t\u00e3o vagaroso.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Tinha um sobretudo encharcado, seu peso duplicado pela chuva, somado ao cansa\u00e7o e a falta de for\u00e7as para chegar na sacada do apartamento que dificultavam a caminhada. Nas m\u00e3os eu levava a nossa janta, sem nem saber que seria nossa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Subi os tr\u00eas degraus, girei a chave na porta de ferro e estranhei dar apenas uma volta para abri-la, meu costume eram duas. Mais estranho ainda foi sentir o seu perfume no ar. Afinal, foram tr\u00eas anos sentindo apenas seu cheiro em outros corpos e n\u00e3o preenchendo minha sala de estar com a intensidade que meu inconsciente conhecia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Suas malas estavam dispostas ao lado do sof\u00e1 novo, verde lim\u00e3o para dar um contraste com o tom de laranja que eu pintara a parede. Local onde ficavam, antigamente, nossos quadros. Neste instante fiquei petrificado, sentindo minhas veias quase pularem de mim. Fechei os olhos e respirei fundo. Tentando controlar as batidas do meu cora\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d, pensei.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Por um momento, a parede que eu observava ainda era de tijolos envernizados, num clima escuro, todavia sedutor e \u00edntimo. Os quadros de nossos encontros e sa\u00eddas estavam ali. Nossos olhos brilhantes e nossos sorrisos verdadeiros estavam estampados naquele mil\u00e9simo de segundo congelado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Lembro que olhei em teus olhos e vi o v\u00e1cuo. O vazio provocado pelos acontecimentos mais vis de nossas vidas. Aquele olhar acertou meu peito com um punhal cheio do veneno da culpa e do arrependimento. Mesmo que, conscientes, n\u00f3s soub\u00e9ssemos que o resultado a que chegamos n\u00e3o havia sido apenas por conta de nossos atos impensados.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Voc\u00ea chorou, enquanto me via falecendo por dentro. Trancando meu cora\u00e7\u00e3o num cubo de cristal e minha alma num casulo de prata. O chaveiro com a miniatura da Torre Eiffel tilintou, voc\u00ea o levou consigo sem dizer adeus ou qualquer que fosse a palavra adequada para o momento. E tr\u00eas longos anos se passaram.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Adentrei para o segundo c\u00f4modo, estava agora \u00a0na cozinha, intacta e sem reformas desde que voc\u00ea se foi. E de l\u00e1 ouvi do banheiro o som do chuveiro derramando \u00e1gua. N\u00e3o quis ver a cena, e calmo deixei o yakissoba sobre a mesa. Sentei-me na cadeira, pus as m\u00e3os no queixo em posi\u00e7\u00e3o de reza e rezei.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Linda como uma deusa, ninfa, ou musa grega voc\u00ea saiu num vestido florido que mesclava o branco, o rosa e alguns tons de verde de maneira impec\u00e1vel. A minha toalha enxugava seus cabelos loiros e seus olhos, sem nenhuma presen\u00e7a do v\u00e1cuo que ficou registrado na minha mem\u00f3ria, me fitaram.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Voc\u00ea foi imprudente ao deixar a mesma fechadura por tr\u00eas anos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Eu tinha esperan\u00e7a que este momento chegasse \u2013 falei calmamente.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Olhei para a mesa e l\u00e1 estava a mesma souvenir de torre que eu havia lhe entregue na nossa visita \u00e0 Paris. Fitamos-nos e voc\u00ea sorriu. Aquele sorriso que evitava brigas e nos reconciliava sempre.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Se eu fosse uma ladra teria levado tudo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; N\u00e3o faria muita diferen\u00e7a \u2013 vi uma careta desaprovadora.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Como voc\u00ea est\u00e1, L\u00e9o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Indo&#8230;<\/strong><strong>Seus olhos reviraram e uma gargalhada muda ecoou em mim.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Tr\u00eas anos se passam e voc\u00ea me diz isso? &#8220;Indo&#8230;&#8221;?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Ainda estou no mesmo emprego, reformei a sala e o quarto, terminei a faculdade, ainda solteiro e&#8230; Voc\u00ea sabe.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; N\u00e3o, eu n\u00e3o sei \u2013 seus olhos me fitaram com duvidas falsas assim que eu hesitei.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Com saudades \u2013 conclui.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Vi seu sorriso mais uma vez e o cansa\u00e7o do meu peito foi substitu\u00eddo pela for\u00e7a que h\u00e1 anos eu n\u00e3o sentia.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Como voc\u00ea sobreviveu \u00e0quilo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; O come\u00e7o foi dif\u00edcil, mas logo eu recuperei a confian\u00e7a deles e tudo voltou ao \u201cnormal\u201d. \u2013 Seus dedos marcando aspas no c\u00e9u me hipnotizaram.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Que bom&#8230; Passei todo este tempo pensando ter destru\u00eddo sua vida.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; E destruiu \u2013 foste t\u00e3o s\u00e9ria que doeu \u2013 mas tamb\u00e9m destru\u00ed a sua, eu sei.<\/strong><strong>Nossos olhares se encontraram num sorriso esperan\u00e7oso. Mas j\u00e1 n\u00e3o quer\u00edamos saber o que iria acontecer, nem nos comprometemos a dizer se tudo voltaria a ser como antigamente. Nem mesmo citamos o acontecido.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Vai tomar banho \u2013 sua voz foi autorit\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; J\u00e1 vou, deixa eu s\u00f3&#8230; \u2013 fui mexer nas sacolas.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>&#8211; Eu preparo a mesa, vai tomar banho pra n\u00e3o se resfriar.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\"><strong>Assenti.\u00a0<\/strong><strong>Tomei banho. Fizemos amor. Jantamos \u00e0 medida que cont\u00e1vamos como estava nossa vida. Dormimos. Quando acordei voc\u00ea tinha sumido, eu n\u00e3o quis verificar se tinha deixado suas coisas ou n\u00e3o. Me arrumei e fui trabalhar, pensando se tudo tinha sido um sonho ou n\u00e3o. Sem ter medo se iria te ver de novo ou n\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p>Luan Silva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Postado no RLS em 28\/10\/2010 Meus passos eram lentos, minha visibilidade estava quase nula por conta da forte chuva que ca\u00eda sobre minha cabe\u00e7a. Eu observava borr\u00f5es apressados, debaixo de seus guarda-chuvas, lutando contra a brisa irritada e as l\u00e1grimas do c\u00e9u. Buscava entender porque tanta pressa, ou por qual raz\u00e3o eu estava t\u00e3o vagaroso. [&#8230;] <a class=\"read-more\" href=\"https:\/\/oespelhonegro.com\/?p=99\">Read More <i class=\"icon-double-angle-right\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_is_tweetstorm":false,"jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[2],"tags":[4,11,13],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p9qsra-1B","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/99"}],"collection":[{"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=99"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/99\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=99"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=99"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/oespelhonegro.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=99"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}