Ser ou não ser? Eis a questão. – Estar ou não estar? Eis a questão.
Postado no RLS em 05/10/2011
A mais famosa frase de Hamlet da autoria de Shakespeare é, dizem especuladores, vítima de um antigo e contínuo erro de tradução. Segundo eles, a tradução real seria “Estar ou não estar”, pois a semântica da frase exige um verbo estático e de possível alteração, não um de verdade continua como o “Ser” pode transmitir. E na língua inglesa o verbo “Be” vale tanto para o nosso “Estar” ou nosso “Ser”.
Porque desta literatura filosófica e regras de português e inglês? Não, não vou fazer mais um dos discursos extensos que estou habituado, pelo menos espero que não. Peguei esta frase porque ultimamente eu vim me perguntando se o mesmo possível erro de tradução de Hamlet não ocorreu com o fato de sermos ou estarmos solteiros.
Respondam-me os solteiros: Você é ou está solteiro? Trata-se de um estado ou de um fato?
– E então, Luan? Como vai o coração?
É típico meu querer desprezar tais perguntas num encontro que não seja com meus amigos e amigas mais próximos onde eu posso desabafar meus pesares ou comentar do meu romance. Sempre respondo com algo como:
– Rapaz… ‘Ta bem. Meu cardiologista que está saudável. Me mandou apenas tomar conta da alimentação e tentar fazer mais exercícios… Fora isso. Todas as taxas estão regulares.
Após algumas gargalhadas em que consigo “quebrar o gelo” e me tornar o piadista da conversação, o assunto retorna mais direto e sem metáforas de duplo sentido.
– Não, seu bobo. Você está namorando, ficando, se pegando?
E sem escapatória, apenas com alguns segundos toleráveis onde fico me perguntando o porquê a ‘Solteirísse’ não tem um verbo próprio – assim como casar, namorar, ficar (que agora é oficial para o Aurélio), pegar… –, me pego com a língua travada sem saber se antes do “solteiro” o correto é “sou” ou “estou”.
O que era uma dúvida gramatical acabou se tornando uma pergunta existencial.
E aí? Sou ou estou solteiro?
Na fase da carência, eu realmente não sei qual dos dois é pior. Você está solteiro porque estava até pouco tempo namorando e levou um chute na bunda. Ou então você é solteiro porque ninguém lhe quer.
Quando estou dando Aloka por aí, ser solteiro é mais interessante e aproveitável. Você não está querendo se apegar a ninguém. Por isso, dar ênfase que você “é” e não estar interessado em “não ser” é uma forma boa de perguntar: Quer ser meu peguete de hoje?
Já na fase quando estamos interessados no locutor de nossa resposta, nós somos sujeitos mais propensos a mudanças de estado. Você está solteiro. Mas pode muito bem – assim que a outra pessoa quiser – estar namorando, ficando ou um desses verbos criados especialmente para casais.
Contudo, nessas mudanças de situação nós percebemos logo que o verbo correto na realidade é o “Estar”. Você usa um verbo similar porque quer fazer charminho ou pra se sentir a ultima coca-cola choca do deserto. Mas num sentido de se relacionar com o outro você sempre está propenso a deixar ou não de ser solteiro.
Se bem que existem sim pessoas que nasceram para ser solteiras (malditos destruidores de corações e planos de amor). Mas eles são algo a parte. Algo que o romantismo de Shakespeare talvez não tenha identificado e que nossa língua ainda não criou um verbo próprio. Algo como… Solteirar!
Eu solteiro, tu solteiras, ele solteira, nós solteiramos…
(O mais estranho é que o corretor do Word aceitou de certa forma como verbo flexionados..)
Luan Silva
