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Postado no RLS em 11/06/2012


Era uma vez, duas bruxas. Uma era feminista e a outra tradicionalista. Embora ambas fossem profundamente religiosas, havia muitos pontos e idéias dos quais discordavam sobre o que significava a religião.

A bruxa feminista acreditava que a Bruxaria era uma religião a ser praticada unicamente por mulheres, pois a imagem da Deusa era uma fortaleza e poderosa arma contra a tirania patriarcal. E em seu coração brotou a semente da desconfiança sobre a bruxa tradicionalista, pois do ponto de vista feminista, a bruxa tradicionalista parecia subversiva e uma ameaça à “causa”.

A bruxa tradicionalista tendia a acreditar que a bruxaria era uma religião para todos, independente de sexo, pois, nada era mais divisório. E embora a Deusa devesse ser adorada, todos deveriam ficar atentos para serem igualitários nos cultos ao Deus também presente na natureza e conhecido como o Chifrudo . E em seu coração brotou a semente da desconfiança sobre a bruxa feminista, pois do ponto de vista tradicionalista, a bruxa feminista parecia retardatária e uma ameaça à “Tradição”.

As duas bruxas viviam na mesma comunidade, mas cada uma pertencia a um Coven diferente, por isso não se viam frequentemente.
Estranho dizer, que em algumas ocasiões elas se respeitavam bastante e sentiram uma incomum e mútua sensação de atração, pelo menos a nível físico. Porém, ambas reconheceram loucura nesta atração. Em suas concepções, seus mundos eram separados e nada parecia capaz de ligá-los.

Mais tarde, a comunidade decidiu realizar um Grande Encontro de Covens numa floresta próxima à comunidade, e todos os Covens da área foram convidados a participar. Após os ritos, os cantos, os encantamentos, os festejos, a poesia e a dança circular terem sido concluídos, todos se recolheram em seus aposentos e sacos de dormir. Todos, menos as duas bruxas.
Elas foram perturbadas por suas diferenças e tiveram insônia por isso. Permaneceram sozinhas ao redor da fogueira enquanto todos vagavam em sonhos. Em pouco tempo começaram a comentar sobre os diversos pontos em que elas não concordavam. E para comprovar a inexperiência das duas, elas começaram a discutir a verdadeira face da Deusa.

‘Descreva a sua face da Deusa para mim’ – desafiou a bruxa feminista.
A tradicionalista sorriu, suspirou e disse num murmúrio maçante:

‘Ela é a personificação da beleza de tudo. A quintessência do sagrado feminino. Eu visualizo com os cabelos loiros como a prata do luar, cheio e espesso caindo sobre os ombros suaves. Ela tem o corpo jovem sensual de uma donzela no auge de sua volúpia. Suas vestes são sedutoras, tênues, finas e justas ao seu quadril esbelto. Vejo sua dança como a de uma ninfa élfica numa clareira iluminada pela Lua. A dança das sacerdotisas sagradas do Templo. E ela seduz assim o seu amante, o Deus de Chifres, com sua voz suave, macia, doce e melódica ela o encanta enquanto canta ao som de um sino prata meio fosco com gelo. Ela é Freyja, a Deusa do mor e da Sensualidade. E seu amante vem ao seu deleite, pois é seu destino ser a Grande-Mãe, geradora de tudo. É assim que vejo a Deusa.’

A bruxa feminina soltou uma gargalhada alta e disse:
‘Sua Deusa é uma Barbie Cósmica! O arquétipo Junguiano de uma líder de torcida! Ela é todo Glamour e nada além disso. Onde está sua força? Onde está o seu poder? Eu a vejo a deusa de forma muito diferente.
Para mim, Ela é a personificação da força, coragem e soberania. Um símbolo vivo do poder e sabedoria coletiva de todas as mulheres do universo. A visualizo com o cabelo tão negro como uma noite escura, num corte curto para facilitar os cuidados nos campos de batalha. Ela tem um corpo musculoso de uma mulher no auge de sua saúde e fitness. Suas vestes são praticas e sensatas. Nada de vestidos colados. Ela não pinta seu rosto, perfuma sua nuca ou raspa suas pernas para alimentar a vaidade dos homens. Ela não faz danças eróticas para atrair homens o seu colo. Ela chama o macho pela sua voz forte e desafiadora. E faz isso para lutar contra a repressão do ego masculino. Ela é a Artemis caçadora. Ela é fatal para qualquer homem que lhe lançar um olhar nefasto. Embora seja aquela que nos nutre, ela é também Crone, a Sábia, que destrói a velha ordem. È assim que vejo a deusa.’

Foi a vez da tradicionalista gargalhar e dizer:
‘Sua Deusa vai de encontro a tudo o que é feminino. Ela é javé escondido atrás de uma máscara feminina. Não se esqueça de que foram seus seguidores que queimaram as bruxas na fogueira por ser “pecado” ter “caras pintadas”. Afinal, bruxas com seus conhecimentos herbáceos desenvolveram a arte dos cosméticos. Ainda assim… Onde está a beleza? O Amor e o desejo?
Nesta troca de argumentos foram varando a noite. Até que o som de suas vozes despertou um Ancião de um dos Covens que dormia próximo dali. O velho se aproximou delas e encarou uma e depois a outra em um perfeito silêncio. Então ele sugeriu que ambas dessem uma volta na floresta em direções opostas e por meios mágicos e meditativos buscassem a verdadeira face da Deusa. Ao concordarem, saíram uma para cada direção.

Após um tempo de invocação, alteração de consciência e meditação, houve um momento de quietude plena. Logo em seguida um lampejo de luz foi projetado na floresta. Uma luz forte em contraste com o verde denso da folhagem. As duas saíram correndo na direção em que a luz se projetou. Admiradas e espantadas, elas descobriram que a deusa havia se materializado numa clareira diretamente para elas, mas ainda assim entre elas.
A tradicionalista gritou: ‘Eu te avisei!’ ao mesmo tempo em que a feminista berrou ‘Veja! Eu estava certa!’. E elas não se ouviram.

Para a bruxa feminista, a Deusa parecia ser uma matriz iluminada de poder e força, com coragem e energia que flui mundo afora. A deusa parecia estar lhe estendendo os braços para um abraço, como uma Valquíria amiga de batalhas.
Para a bruxa tradicionalista, a Deusa parecia ser o auge da beleza feminina, tocando uma harpa suavemente e cantando a canção sedutora das sirenas. A nergia parecia fluir para com ela. E ela parecia convidar a bruxa para um abraço apertado.

De lados opostos, as bruxas correram em direção a Face da Deusa que tanto amavam. Desejando do fundo da alma o êxtase divino que tal abraço poderia ofertar. Mas pouco antes de tocarem os dedos da deusa, a visão se desfez.

Assustadas com tudo, as bruxas se viram em um forte enlace de braços perfeito.
Segundos depois, ambas puderam ouvir dos recantos mais silenciosos da floresta, ao mesmo tempo e com a mesma intensidade a voz da Deusa. E finalmente concordaram que aquilo estranhamente soava de maneira igual para ambas.
Soava como um sorriso…


 Mike Nichols (traduzido e adaptado por Luan Silva)