Frozen-Wallpapers-frozen-35894751-1920-1200

Postado no RLS em 16/03/2014 (Um ano sem postagem alguma!)


A Disney renovou-se muito nos últimos anos. Sua visão e expressão das personagens femininas cresceu bastante. De Mulan à Tina (Princesa e o Sapo) podemos ver que a independência era um tema difícil de ser abordado pela empresa. Tinha-se mulheres independentes, porém que buscavam ainda o seu amor.
Todavia, com Mérida de Valente (Brave, 2012), vemos a primeira princesa da Disney declarar independência e não se casar com nenhum dos seus pretendentes. Todos ficaram assustados, afinal era a primeira vez que víamos isto num filme da Disney. Pouco imaginávamos que esse enredo focado nos mitos e terras Celtas e na Tríplice Face da Deusa Wiccana era uma preparação para conhecermos Elsa, primeira Rainha dos estúdios Disney.

Mas antes de comentarmos sobre ela, quero relembrar o meu conto favorito e sua relação com a Iniciação na Bruxaria (ou qualquer vertente): Branca de Neve.

É comprovado que os Irmãos Grimm ao copilarem os seus contos, pegaram elementos da cultura pagã local, e mesmo elementos que aleatoriamente não fazem sentido, no fundo tem uma representação do real.
Branca é o arquétipo do Neófito nas Tradições Iniciáticas. É o ser que sai em uma jornada dentro de si mesmo, passa por diversos ritos de passagem até chegar à sua ascensão: ser a Rainha. No caminho iniciático, nos deparamos com nossa Sombra e a enfrentamos. para chegar ao status de Rainha, que seria equivalente ao Sacerdócio, ao status do Iniciado.
Na personagem vemos sua evolução, a sua fuga do caçador (Caçada Selvagem), a sua entrada na Floresta Negra (Dedicação/Noite Escura da Alma), o contato com os anões (Energias da Natureza), o encontro com a rival (Encontro com a Sombra), a morte por envenenamento (Morte Ritual/Iniciação), o Beijo do Amor (Encontro com Consorte, Grande Rito de Fertilidade).
Porém, assim como ficam as dúvidas do que fazer após se Iniciar, nunca houve, ao meu conhecimento, um Conto Animado que representasse o que vem pós a Coroação. Sempre se para no “final feliz” que sabemos que não é tão feliz assim.

E é aqui que chegamos em Frozen!

Inspirada no conto A Rainha da Neve (Snedronningen) de Hans Christian Andersen, Frozen narra a história de Elsa e Anna, filhas de reis da Noruega, sendo uma delas a tal Rainda da Neve.
Sobre as personagens:
– De um lado temos Anna, a caçula, comum princesa da Disney que busca um príncipe encantado, que vive o escopo do Amor Fantástico que padroniza milhares de mente ainda hoje.
– Do outro existe Elsa, princesa que nasceu agraciada com o poder de congelar coisas e controlar a Neve. Porém por não conseguir controlar tão bem os seus poderes viveu isolada, até o dia de sua coroação.

Anna é o socialmente esperado, a Persona. É o modelo a ser seguido, aquilo que a sociedade preza como ideal. Garota feliz, que sonha com um grande amor, e ao encontrá-lo se casa para viverem felizes para sempre.

Elsa é o arquétipo da Sombra, ela representa tudo de nós que não conseguimos lidar ou trabalhar perfeitamente. E por isso, escondemos, enclausuramos e mantemos escondidos isolados num quarto escuro. Na personagem, isso é representado pelo seu poder incontrolável, que nada mais é do que sua própria natureza.
Quando ocorre a Coroação (Iniciação), um encontro das duas ocorre, após MUITO tempo, e o choque entre Elsa – “o que se é” (Sombra) – e Anna – “o que se almeja ser ou mostra ser” (Persona) – termina de forma terrível.

Os poderes de Elsa vem à tona (a Sombra desperta após a Iniciação), e tudo que ela mais temia acontecer, acontece. Toda a situação acaba forçando-a a se isolar. No seu isolamento ela compreende a sua natureza, seu poder e começa a deixá-lo fluir.

 

Isso nada mais é do que a representação do período pós-iniciático. Passamos a lidar com tudo o que não queremos de nós, compreendemos nosso papel na sociedade, nossas responsabilidades, “nossa natureza”.

Num segundo encontro entre Elsa e Anna, Elsa atinge o coração de Anna e à condena à morte. Fazendo o paralelo, temos a Sombra desconstruindo a Persona, a moldando para o próximo estágio.
No fim, há um sacrifício de amor. Anna se sacrifica por Elsa e prova o seu amor pela irmã. Vemos que a Persona se deixa morrer para se jogar na sua própria natureza, na Sombra. Encontrando assim sua Essência.
A busca da essência divina é o maior objetivo de qualquer sacerdote. para tanto ele precisa por meio deste sacrifício (sacro oficio) se desconstruir e a partir de si mesmo encontrar a divindade que habita em si mesmo.

Curiosidades:

–  Ainda sobre Elsa sendo a Sombra. Vemos o papel de guia protetor do arquétipo. Elsa avisou sobre o casamento e estava certa sobre a precaução. O tal príncipe não tinha as melhores intenções.
– Importante salientar que é o primeiro conto que a “Bruxa” não é vilã. Mas é o tema central do conto como sempre.
–  A cena onde Elsa nega a benção ao casamento de Anna é uma das mais importantes. Mostra o contraste dos desejos suplantados em nossas vidas, com o que REALMENTE queremos para nós.


Luan Silva