ImagemPostado no RLS em 10/10/2010


Era uma vez um alguém.
Alguém jovem, tão novo, mas preenchido com uma velhice precoce que assusta seu espelho. O último não sabe se o rosto que se reflete em si tem ou não as cicatrizes e as rugas na alma que se apresenta pelos olhos negros.
Mas é alguém que teve poucas experiências de vida, as que teve foram levadas (todas) para o lado trágico, o lado cheio de drama, dor, sofrimento e lágrimas desnecessárias. Este era alguém que gostava de viver em martírio, solidão e medo. Contudo foi alguém que absorveu para si as experiências alheias e se fez experiente – teoricamente falando, é claro.

Era uma vez alguém que descobriu:
a depressão – ou primeira paixão, rejeição, interjeição… Vai saber!
o amor – tão longe, mas tão dentro do seu coração, foi uma entrega involuntária que levou parte daquele ser e deixou lembranças dolorosas.
batalhas contra vilões dentro de seu próprio ser – sobre isso não tenho muito mais o que dizer.
a magia – descobriu a vocação, o caminho, a vida, e a razão de viver.
Foi alguém que viveu a história jamais escrita, descobriu sua força mágica na natureza e se fez sacerdote dos Deuses do Eteno Presente. Um ser que passou por sepulcros, mausoléus, terras mortas e se afundou a cada dia de sua vida numa escuridão que se tornou um casulo. Foi como uma largata que viveu tudo o que tinha pra viver naquela sua vida de rastejar-se lentamente, e começou a construir vagarosamente o seu casulo.

Casulo este que lhe defendeu de grandes sofrimentos, mas lhe privou das mais puras alegrias e momentos felizes. Casulo este que lhe fez responsável e lhe garantiu o bom senso, mas lhe deixou medroso e inseguro. Um casulo negro, nefasto, que se mascarava como anti-sociabilidade, estranheza, esquisitices e uma mania terrível de desaparecer. Casulo que fez sua Sombra forte, viva, sua Luz fraca e sua Fé vacilante.

A redoma se fez presente por muito tempo, e se tornou a inimiga maior do certo alguém, que no seu trajeto mágico conseguiu despedaçar algumas partes de sua prisão. Mas ainda assim, o ser estava ali no seu mundo ínfimo e com as fronteiras rigorosamente inacessíveis.

Mas os Deuses são sábios. E a Deusa que canta a canção do silencio sem desafinar, garantiu o momento correto para o fim da redoma e fez a jornada até ele ser a maior viagem que nenhuma alma poderia trilhar. Numa canção de Morte e Renascimento, a Deusa entoou o destino selado da alma antes perdida. E assim a redoma rompeu, o Alguém ganhou um nome, uma face, uma cor e se fez vivo, inexperiente e curioso.

E assim nasceu a borboleta.

Tal qual Psique, a curiosidade humana, a mesma que move o mundo, trás o amor, as experiencias e a sabedoria. A Deusa que foi abençoada com a imortalidade divina e tornou-se alada como uma borboleta. A mesma Psique que foi amaldiçoada, agraciada, condenada, rejeitada, desafiada, auxiliada e consagrada pelo seu simples amor pelo Cupido.
Tal qual um grito que esmaga nosso esôfago no desejo de ser expurgado do nosso ser, ora porque não nos pertence, ora porque nos reafirma.
Tal qual a mim e minha vida, que saiu da escuridão do casulo e está pronta pra conhecer o mundo.


 

Luan Silva